Não ver o Mal: Por que existe tão pouca conscientização sobre psicopatia?

Parece que as pessoas tendem a pesquisar psicopatia e outros distúrbios de personalidade depois que elas já foram queimadas. Eu decidi trazer de volta um post que examina algumas das razões pelas quais existe tão pouca conscientização sobre psicopatia no público geral. A idéia é que essa informação atinja o público geral, para que as pessoas possam identificar os sintomas de distúrbios de personalidade graves antes de saírem machucadas / prejudicadas.

Talvez porque eles são tão perigosos e destrutivos – a aproximação mais exata do mal metafísico que seres humanos podem incorporar – o público geral tem um fascínio por psicopatas. Nós os vemos frequentemente em destaque nas notícias. A mídia parece se intrigar por homens como Scott Peterson e Neil Entwistle, que sem nenhum tipo de remorso assassinaram suas esposas só para que pudessem enganar mais facilmente outras mulheres. O público engole essa informação sórdida. Livros de crimes reais sobre assassinos psicopáticos tendem a ser campeões de vendas. De forma similar, obras biográficas sobre Hitler e Stalin continuam a vender bem. Ainda assim, paradoxalmente, fascinado como o público geral é com psicopatas e seus feitos malignos, esse mesmo público está muito menos interessado no que faz essas pessoas se comportarem dessa forma, e como reconhecê-las e evitá-las na vida real. Conforme mencionado, existem alguns estudos altamente informativos sobre psicopatia, alguns dos quais:

– The sociopath next door (O psicopata da porta ao lado), de Martha Stout,
– Snakes in Suits (Cobras de terno) de BabiakHare, e
– Women who love psychopaths (Mulheres que amam psicopatas), de Sandra L. Brown ,

foram escritos para o público geral. Esses livros descrevem claramente e sem jargões desnecessários a psicologia de indivíduos malignos. Infelizmente, no entanto, tal informação tende a ser menos popular que a cobertura dramática de notícias sobre psicopatas assassinos ou as histórias de terror que lemos em crimes de verdade e suspenses de ficção. Por quê?

A primeira resposta que tenho a oferecer é em forma de analogia. Quando você vai comprar um carro, não precisa de ninguém para te explicar nos mínimos detalhes os princípios da física e mecânica que estão por trás do funcionamento de um carro. Você vai no máximo ler alguma revista ou site especializados, para ver como o carro está classificado em várias categorias relevantes, tais como qualidade geral, segurança e quilometragem por litro. Então você vai ver o carro ao vivo, para ver se gosta e se é do tamanho ideal para atender as necessidades da sua família. Em outras palavras, um conhecimento superficial do carro é suficiente para o usuário. É assim que a maior parte das pessoas se sente em relação aos psicopatas que aparecem nas notícias, na história ou em livros ou filmes baseados em histórias reais ou fictícias. Eles têm uma visão superficial do fenômeno: gente má existe e faz coisas terríveis aos outros. Mas elas não acham que precisam entender essas pessoas em um nível psicológico mais profundo. O que me leva à minha segunda razão. Tendemos a ver psicopatas como uma forma excitante, para não dizer mórbida, de entretenimento. Podemos não aprovar seus crimes hediondos, mas sua capacidade para o mal nos fascina. Em terceiro lugar, e talvez o mais importante, temos psicopatas ao nosso alcance, por assim dizer, em nossas próprias mentes. Eu já perdi as contas de quantas vezes ouvi pessoas entrevistadas, nas notícias sobre um assassinato violento, dizerem que eles não podem acreditar que isso aconteceu na família ou na vizinhança delas. Acreditamos que o grande infortúnio de ser a vítima de um cônjuge ou amante psicopata assassino, estuprador ou vigarista só recai sobre os outros. De alguma forma, assumimos que nossas famílias e nós estamos imunes a essas coisas terríveis acontecerem para nós. Talvez nós acreditamos que somos muito sábios, muito bem educados e vivemos em um bairro bom demais para cair nas mãos de predadores sociais.

Se você pensar sobre isso racionalmente, no entanto, você vem a perceber que essa crença se basa em uma ilusão. Pode ser verdade que você e seus entes queridos não sejam estatisticamente prováveis de serem vítimas de um serial killer psicopata. Especialistas estimam que existem apenas cerca de 50 a 100 serial killers que circulam no país (*EUA) em qualquer momento dado. É, portanto, racional não viver sua vida com medo de ser atacado por um deles. Mas não é estatisticamente provável que você vai evitar qualquer envolvimento íntimo com um psicopata para o resto da sua vida. Psicopatas constituem cerca de 4 por cento da população. Isso é significativo, dado o número de vidas que tocam e o tipo de dano que podem causar. Psicopatas são extremamente sociáveis, altamente promíscuos, podem ter muitos filhos, se deslocam de um lugar para outro geograficamente, ou seja, eles circulam por aí. A doença deles é tecnicamente chamada de “transtorno de personalidade anti-social” não “transtorno de personalidade associal.” Em português, usamos o termo “anti-social” para falar de pessoas que evitam o contato humano. Mas essas são pessoas “associais”. “Anti” social neste caso é, na verdade, “CONTRA” a sociedade. Uma pessoa anti-social, portanto, procura outros, a fim de usá-los, aplicar golpes, enganar, manipular, trair e, finalmente destruí-los. Isso é o que os psicopatas fazem. Eles se alimentam, como parasitas, das nossas vidas. Eles vivem em nome da emoção que sentem em danificar os seres humanos mais saudáveis, mais produtivos e mais solidários.

Estatisticamente falando, há chances bem razoáveis de que você tenha um psicopata em sua família grande. Há ainda maiores chances de que em algum momento você se esbarrou com um ou vai encontrar um em sua vida. Talvez foi aquele namorado que parecia perfeito no início, mas acabou se mostrando abusivo de alguma forma, e/ou viciado em sexo. Pode ser um chefe difícil, que torna o trabalho insuportável para seus empregados. Ou talvez tenha sido um professor manipulador que se tornou um pequeno déspota no departamento. Talvez tenha sido um professor que ficou muito sociável com seus alunos e até mesmo seduzido alguns deles. Ou talvez foi um amigo que parecia ser bondoso e amoroso, apenas para repetidamente te apunhalar pelas costas. Talvez tenha sido um vigarista que roubou todas as poupanças de uma vida inteira da sua mãe idosa, ou uma parte do suado dinheiro dela, e desapareceu completamente. Além disso, qualquer psicopata pode te causar danos físicos e pôr em perigo a sua vida. Ele não tem que ser predisposto ao estupro e ao assassinato. Scott Peterson e Neil Entwistle não eram sádicos assassinos em série. Eles eram os psicopatas carismáticos do tipo comum, que no fim acharam o casamento meio inconveniente demais e incompatível demais com os novos e mais selvagens caminhos que queriam seguir na vida. A incapacidade deles de considerar os outros como seres humanos iguais, companheiros de humanidade, torna todos os psicopatas extremamente perigosos.

Já que a empatia, os princípios morais e a capacidade de amar não desempenham um papel no processo de tomada de decisão de nenhum psicopata, a transição de sub-criminoso a psicopata criminoso pode ser fluida e imprevisível. Todo e qualquer psicopata poderia facilmente se envolver em comportamento violento. Meu ponto principal aqui é o seguinte: a aprendizagem sobre psicopatia não é uma questão de pesquisa técnica em psicologia ou de teorias abstratas que são bastante irrelevantes para o público em geral. Esta informação é altamente pertinente para todos nós. É muito mais útil do que aprender todos os detalhes técnicos sobre como funciona o seu carro, para voltar à analogia anterior. Você nunca vai precisar reconstruir o seu carro a partir do zero. No máximo, você pode precisar aprender como trocar um pneu pelo estepe. Mas é provável que que você precise se defender, pelo menos emocionalmente e psicologicamente, de um psicopata que atinge a sua vida e tem o objetivo de destruir o seu bem-estar. Um conhecimento básico de psicopatia pode poupar anos de sofrimento nas mãos de um cônjuge ou parceiro que você nunca consegue agradar, que nunca pára de mentir e te chifrar, e que te mantém constantemente “na rede” dele. Esse conhecimento pode te poupar toda uma vida de batalha para para salvar uma criança incorrigivelmente má dos próprios erros dela. Esse conhecimento pode te ajudar a evitar ser enganado por burlões que são excelente em seu jogo. Pode te dar a força para sair de um trabalho onde seu chefe mantém todos em terror constantemente oscilando entre a doçura do açúcar e o abuso.

Obviamente, esse conhecimento não pode protegê-lo de todo o mal causado por indivíduos malignos. Mesmo que você esteja informado sobre a psicopatia, você ainda pode ter a infelicidade de se tornar vítima de um crime aleatório (atos terroristas, balas perdidas, assaltos, estupros, sequestros), ou de fazer parte de uma sociedade governada por um ditador psicopata. Mas pelo menos um conhecimento básico de psicopatia pode ajudar aqueles de nós que têm a sorte de viver em sociedades livres a determinar aquilo que está em grande parte dentro de nosso escopo de controle: a quem escolhemos nos associar e quem escolhemos evitar, sair de perto ou largar. Esse conhecimento pode nos ajudar a reconhecer os sintomas desse perigoso distúrbio de personalidade, de modo que nós não convidemos uma pessoa ruim para entrar nossas vidas, com os braços abertos. Esse conhecimento pode nos dar a força para terminar para sempre um relacionamento tóxico com um predador emocional, assim que a doença dele se torna óbvia para nós. Em outras palavras, o conhecimento sobre a psicopatia constitui a melhor defesa que o público em geral, e não apenas aqueles que foram pessoalmente prejudicado, pode ter contra os seres humanos do mal: evitá-los sempre que possível e escapar deles sempre que ficamos enredados em suas teias. Desnecessário dizer que mesmo aqueles de nós que se tornam bem informados sobre psicopatia não serão qualificados para diagnosticá-los clinicamente, a menos que adquiram uma formação profissional neste campo. Mas podemos nos tornar capazes de reconhecê-los bem o suficiente na vida real para querer ficar longe deles. Para todos os efeitos práticos, é isso o que mais importa.

Texto original de Claudia Moscovici, do psychopathyawareness, traduzido e adaptado por LDP

livredepsicopatas.wordpress.com

Foto:
Andrew Neel