Não aconselhe “amor próprio” a sobreviventes de relacionamentos abusivos

Meninas (e meninos que também possam participar desse tipo de conversa – o que, corrijam-me se estou errada, é menos comum):

Sempre que alguém termina um relacionamento, abusivo ou não, e pede ajuda, chove uma enxurrada de conselhos de todos os tipos. Um dos mais comuns é dizer que:

– Ambas as pessoas envolvidas têm um pouco de culpa ou responsabilidade no término
– Não saia bloqueando a pessoa nas suas redes sociais e whatsapp, para não parecer imatura e que está se afetando muito.

E eu concordo totalmente com isso, para relacionamentos saudáveis e normais.

Quando um relacionamento saudável acaba, eu concordo que sair bloqueando e dando gelo é drama demais, um pouco de imaturidade, e até mesmo “demonstrar para a pessoa que você está se importando demais”, e que agir naturalmente e cordialmente é uma saída elegante e “por cima”. E concordo que quando um relacionamento saudável acaba, os dois têm um pouco da “culpa”, ou de repente a culpa não é de ninguém, é só uma questão de personalidades incompatíveis.

Mas a minha questão de insistência nesse tema não é nem desconstruir ou tentar mudar pensamentos. A minha questão, que eu vejo como algo perigoso, é alguém vir ACONSELHAR uma menina que sofreu abuso a “olhar para si também”, a “ver o que dentro dela a levou a estar propensa ao abuso”, a “admitir sua parte de culpa nessa história”, e demais variações (que fariam total sentido em um relacionamento saudável).

Perigoso não só porque a última coisa que uma vítima de abuso precisa é ser culpabilizada de alguma forma, mas principalmente perigoso porque a gente vê o tipo de post que é feito em grupos de Facebook: o de “manas, me ajudem, O QUE EU FAÇO?” E podem vir 50 falar “pula fora”, “sai dessa”, etc. Se UMA disser “olhe para dentro de você e tente identificar o que EM VOCÊ gerou isso nele”, ou “em algum momento você falhou e não se deu amor-próprio”, isso é TUDO o que essa menina quer ouvir, e é tudo ao que ela vai se ater.

A esperança – a última que morre – de que se ELA olhar para dentro e buscar algo NELA que tenha causado isso (e ela VAI achar, mas não por causa de uma culpa real, e sim por meses ou anos de gaslighting e grooming – do cara e da sociedade), o relacionamento dela tem conserto. É só essa migalha de ESPERANÇA que ela precisa para perdoar o abusador e trazê-lo de volta ao lado dela, ou pior, ir atrás dele e PEDIR DESCULPAS, se humilhar mais, e perpetuar ainda mais o abuso.

Ou em vez de esquecer o cara e partir para outra, tentar provar que “agora sim eu me valorizo, olha”, e tentar reconquistá-lo ou gastar energia nele nem que seja para provar que ele está errado (o que no fundo significa: querer fazer ele voltar a se apaixonar por você).

Não estou atacando ninguém, e tenho certeza de que comentários de “olhe para dentro de você” são sempre feitos com a melhor das intenções, e o meu comentário aqui está indo além.

Mas vítimas de abuso, principalmente as recentes, principalmente as que ainda estão sofrendo hoover do abusador (hoover = quando o cara ainda vai atrás, para te sugar de volta para a relação) estão extremamente vulneráveis para fazer qualquer tipo de ponderação e introspecção racional nesse sentido. É apenas por isso que eu insisto no grande cuidado que devemos ter ao aconselhar as meninas que sofreram abuso a “olharem para si”, “verem o que elas fizeram para permitir isso”, ou “terem mais amor-próprio”. É isso!

**ATUALIZAÇÃO**

5 minutos após ter postado esse artigo no Facebook, recebemos comentários insistindo na questão de “reencontrar o amor próprio”, e relatando que “eu, pelo menos, perdi o meu”.

Cada um é cada um, e vai ter uma experiência diferente, mas infelizmente, insistir que você perdeu o amor próprio é um ponto de vista que te desempodera e não te ajuda em nada. Não só você ainda está atribuindo ao P controle e efeito sobre você, como também acreditar que agora você está num ponto em que perdeu a coisa mais importante para uma mente humana, que é o respeito e amor por si própria, é algo super severo consigo mesma(o)! Acreditar, por outro lado, que esse amor e esse respeito ESTÃO e SEMPRE ESTIVERAM aí, e que você apenas foi enganada(o) (o que acontece, porque você é uma pessoa empática que confia nos outros), perdeu a percepção do que é real, e foi groomed a acreditar que agora tem menos amor próprio, mas descobriu isso e já está reavaliando para consertar e voltar ao normal, é algo empoderador e que te serve muito mais.

REPETINDO: Em nenhum momento falta amor próprio a pessoas que se envolveram com psicopatas. Em nenhum momento elas “aceitaram o abuso de alguma forma” por estarem “se anulando”, “se desrespeitando” ou se sentindo de alguma forma inseguras ou sem auto-estima. O abuso de um\a psicopata acontece justamente porque ele\ela explora a sua auto estima, sua auto-confiança, seus pontos fortes, sua capacidade de discernir e de não sair agindo de acordo com suas expectativas fantasiosas do que um relacionamento deve ser, da sua capacidade de saber que todos somos diferentes e não somos ninguém para julgar.
O contato zero é importante porque é APENAS EXTIRPANDO COMPLETAMENTE qualquer notícia ou informação sobre o indivíduo que poderemos recobrar o SENTIDO DE REALIDADE. Após o descarte, uma pessoa perdeu a REFERÊNCIA do que é normal ou não. De se entendeu algo certo ou não, de se teve falhos de comunicação ou não, de se deu atenção e compreensão que atendesse as necessidades humanas (de alguém normal) ou não. Continuar recebendo mensagens, vendo updates de facebook, relendo emails antigos – mesmo que não seja “por saudade” e sim para TENTAR ENTENDER O QUE ACONTECEU, SÓ vai servir para NÃO dissipar a névoa. Continuar ouvindo amig@s do indivíduo ou amig@os em comum emitindo a própria opinião sobre algo que não sabem nem têm como saber, ou mandando recadinhos, só vai servir para te puxar de volta ao vortex de insanidade e violência psicológica.
 
O contato zero é PRIMORDIAL não para recuperar sua autoestima, mas para cortar qualquer tipo de veneno que VAI continuar vindo se você mantiver contato. BEM diferente de se distanciar de qualquer outro tipo de relacionamento, para aprender a procurar alguém que te ame de verdade, te valorize, para aceitar que o\a cara não te ama, para dar espaço ao\à ex e encontrar sua própria felicidade sem codependência de ninguém.
 
O “contar os dias de contato zero” não deve ser algo tipo Alcoólicos Anônimos, claro, quando você está tão focada\o em relembrar que está de contato zero que fica impossível esquecer o indivíduo de certa forma. Mas saber quanto tempo faz é importante para a cura. É importante saber que mesmo quando um ano e meio de contato zero se passaram, e você vê algo sobre o P, pode voltar a apresentar PTSD como se fosse a semana 2. É importante para sedimentar o quão essencial é o contato zero, o quão grave foi o efeito do abuso, e o quanto devemos nos focar na nossa própria recuperação, cura, e volta à normalidade.
Além disso, a importância de “prestação de contas” coletiva dos dias de contato zero (em grupos online de ajuda, por exemplo) é que tem MUITA gente que ainda fica espiando conta de facebook, de instagram, vendo no whatsapp a última vez que o P ficou online… (o que também quebra contato zero, mesmo que você não esteja falando com o P). Essas pessoas estão viciadas. E precisam do apoio de “já faz 5, 6, 20 dias que eu não fui lá xeretar, mandar mensagem, espiar, etc”, que nem em qualquer grupo de cura de vício. Claro que contar dias de contato zero não deve ser uma obsessão. Só perguntamos para saber o quão longe as pessoas estão no processo de cura, e para ajudar na responsabilização daquelxs que precisam começar – e MANTER – contato zero JÁ. Não para marcar num calendário e ficar obsessionando.
Em vez de contar “quantos dias faltam para eu começar a me amar”, que tal já saber, de saída, que você sempre se amou, que você é forte PRA CARALHO e sempre foi, e que é normal passar um tempo para renormalizar sua percepção da realidade?