O que é dissonância cognitiva e como acabar com ela

Você está tendo dificuldade em estabelecer Contato Zero porque você ainda acredita, de alguma forma, na noção de que em algum ponto no passado você realmente significou tanto para ele/ela quanto ele/ela significou para você. E todo o constante bombardeio de amor que ele/ela te fez reforça isso. Tudo o que ele/ela falou para você ele/ela também falou para outras vítimas, e nós (outrxs sobreviventes de outrxs P/S/N) ouvimos a mesma coisa também:

“Você é a melhor coisa que já me aconteceu”
“Você é a/o melhor namorada/o que eu já tive”
“O que a gente teve foi realmente especial”
“Eu ainda sinto saudades, você foi a parte mais importante da minha vida em muito tempo”
“Só você me entende, só com você eu posso dividir o que eu sinto, eu te conto tudo (porque somos tão amigos, etc)”
e bla bla bla…

Quanto mais você lê sobre psicopatas, mais você percebe que se os lábios dele/dela estão se mexendo, ele/ela está mentindo. E o que quer que ele/ela tenha te dito que tenha feito você se sentir tão especial, foi dito centenas de vezes (ou mais) para várias outras vítimas. Essas são apenas “linhas de pesca” que eles jogam para te manter presa/o no anzol. Eles/as jogam várias linhas para ver quem morde a isca.

O primeiro passo na recuperação é perceber que você estava lidando com um/a psicopata, porque você estava. O segundo passo, e um dos mais duros de encarar, é perceber que o que quer que você tenha “compartilhado” com ele/ela foi uma ilusão. O relacionamento e o amor foram baseados em mentiras. Não de sua parte, mas de parte dele/dela. O que VOCÊ sentiu foi real, mas o indivíduo por quem você se apaixonou foi apenas uma miragem, elaborada para espelhar e cativar você. Não existe de verdade. Foi tudo falso. Nada disso foi real.

Você pode estar pensando: “Mas com certeza os momentos que vivemos juntos [complete a frase com atividades, momentos, trocas de palavras, mensagens] foram reais. Eu SENTI isso. Eu nunca me senti assim com mais ninguém!”,

“Mas eu SEI que daquela vez específica foi tão íntimo e real, que TEVE que ter significado algo para ela/ele também”,

“Talvez eu SEJA MESMO o melhor que já aconteceu a ela/ele, assim como ela/ele fala, ou que eu fui A ÚNICA pessoa que ele/ela amou, que amou mais que todos/as os demais, mas simplesmente não deu certo por que… por causa de…

[selecione as alternativas aplicáveis]:

certas complicações
certos conflitos de personalidade
a dificuldade dele/a de entrar em relacionamentos sérios, de se comprometer
os problemas de auto-estima dele/a
a dificuldade que tem de confiar nos outros por causa de uma coisa que aconteceu em seu passado
etc.

O pior de tudo é você ainda por cima pensar que “não deu certo” por causa de algo que VOCÊ fez ou deixou de fazer.

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cognitivo(a)

adjetivo
1.
relativo ao conhecimento, à cognição.
2.
relativo ao processo mental de percepção, memória, juízo e/ou raciocínio.
.
.
dissonância
substantivo feminino
2.
p.ext. falta de harmonia, discordância (entre duas ou mais coisas).
“cores e formas em d. não acalmam”
.
.

Dissonância cognitiva é a discordância simultânea entre duas percepções, memórias, juízos ou raciocínios que você tem.

Por exemplo, saber que o psicopata em questão te faz mal, não te ama, não tem o menor respeito por você, ter EVIDÊNCIA disso, e ao mesmo sentir saudade.

Como é possível, se você SABE que a criatura não só te maltrata, como provavelmente é inclusive perigosa? Você não é nem burra/o, nem trouxa, nem masoquista, nem “mulher-de-malandro”. Então, como é que pode você estar sentindo saudades se você tem evidência real, concreta, de que não só não é recíproco, como é tudo mentira e manipulação?

Porque o seu cérebro, no momento, está experimentando dissonância cognitiva.

A teoria de Festinger (1957) sugere que temos um impulso interno a manter todas as nossas atitudes e crenças em harmonia, e a evitar a desarmonia, ou dissonância.

Buscamos consistência em qualquer situação em que duas cognições são inconsistentes. Buscamos encontrar uma relação, um sentido, uma consonância.

Esse impulso é tão forte, que chegamos a fazer CONTORCIONISMOS MENTAIS para TENTAR JUSTIFICAR o nosso amor.

Quando “ninguém mais entende”, não é que todos estão errados e só você está certa/o. É você fazendo contorcionismos para tentar de alguma forma justificar seu sentimento por alguém assim.

O/A psicopata sabe disso, e usa principalmente duas táticas para gerar a dissonância em você:

1. Bombardeio de amor na fase da idealização

Você já leu sobre a fase da idealização. Sabe como funciona. Assim que conheceu o psicopata, você teve a impressão de que encontrou a sua alma-gêmea. Porque ele não só espelhou a sua própria personalidade na persona falsa que ele está criando para te enredar, como também vai te bombardear de amor como em nenhum relacionamento anterior ou futuro você experimentou ou vai experimentar: mensagens diárias, piadinhas internas, conversas de whatsapp que duram 2 horas e meia até de madrugada com uma frequência altíssima, declarações de que só você o/a entende, de que finalmente ela/ele conheceu “A” pessoa, de que nunca tinha se sentido assim, etc.

Isso funciona como uma droga. Dentro de poucas semanas, você já vai estar completamente dependente. Uma dependência química mesmo, dessa sensação, de toda essa serotonina sendo liberada no seu sistema nervoso central e na sua corrente sanguínea. Então claro, quando as coisas “começarem a esfriar” (o que, lembre-se, também é friamente calculado), você vai fazer de tudo para sentir aquela “química”, aquela “conexão” de volta. Vai ficar se perguntando o que fez de mal. Vai ficar tentando resgatar aquela “conexão” a qualquer custo. Vai começar a achar que você que fez algo de errado, que foi você quem deixou de fazer algo, você que mudou, você que já não é mais atraente, etc.

E nesse momento, você já está no ponto para ele/ela começar a segunda fase, a da desvalorização. Porque agora ele/ela já pode te pisar à vontade, que você vai implorar para “tentar resolver”, “tentar solucionar”, “apenas conversar”. Se ele/ela fizesse isso no começo, você ia mandar tomar no cú. Tenho total certeza. Em posse de sua total sanidade, você jamais deixaria que isso acontecesse. Você não ama. Você está VICIADA/O. E precisa se desintoxicar.

2. Contos da pena

Os contos da pena são outra tática poderosa para gerar dissonância cognitiva em você e te manter nela. São as típicas histórias que um belo dia, depois de algumas semanas ou meses em que tudo corria bem, ele/ela te conta, “revelando um passado difícil, traumático, complicado”, e principalmente difuso e sem muitos detalhes. Você só sabe que:

– algo traumático aconteceu com ele/a, coitadinho/a,
– que esse algo é muito pessoal para você perguntar como quem quer tirar satisfação,
– é algo que não só você “precisa dar espaço” (não perguntar, deixar quieto, “não provocar”, “não esticar brigas pedindo satisfação por algo que você sabe que traumatiza o/a coitado/a), mas que também te faz querer “cuidar, ajudar, apoiar, mostrar que você está lá firme e forte ao lado dele/dela incondicionalmente”, ser a pessoa que vai salvá-lo/a, resgatá-lo/a, mostrar que a vida pode ser feliz e que ele/ela só precisa de amor e carinho de verdade, como o que ele/ela nunca teve e que você pode dar.

Ou seja, é algo que vai ser a justificativa perfeita para o seu contorcionismo mental que busca encontrar um sentido para o comportamento dele/a, e principalmpente, pelo “amor dele/a por você” apesar desse comportamento inaceitável, um “amor” que é “tão profundo e verdadeiro, mas complicado de se concretizar”.

Pronto! Com a lembrança de uma conexão mágica e surrealmente intensa, e uma justificativa para o comportamento deplorável dele/a “que apenas necessita do seu amor, da sua compreensão e do seu apoio para superar esse difícil trauma de infância”, você tem todos os ingredientes para se manter em dissonância cognitiva e continuar sentindo amor e saudade, em vez de perceber a sinistra realidade e pular fora o quanto antes, como qualquer pessoa que não está nessa névoa faria, INCLUSIVE VOCÊ MESMA/O.

Um excelente método de reduzir (e eliminar!) a dissonância cognitiva é adquirir nova informação que tenha mais peso que as suas atuais crenças, memórias ou percepções dissonantes. Nem que seja com auxílio de profissionais qualificados/as (terapeutas). Mas LER, pesquisar, e CONVERSAR COM DEMAIS SOBREVIVENTES também é de grandíssima ajuda.

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Essa é talvez a maior chave para desapegar da ilusão, e também de qualquer tipo de culpa que você possa ter internalizado, ou qualquer sentimento de responsabilidade para com ele/ela enquanto pessoa que em algum momento te amou (e que ainda finge te amar, quando convém). A realidade é, eles/as não amam ninguém, nem os/as próprios/as filhos/as. Não sou eu quem está dizendo: Continue lendo o máximo que conseguir, e pesquisando, até que finalmente a ficha caia, até que finalmente a informação sedimente no seu entendimento. O SIMPLES FATO de que você se sente culpada/o por querer estabelecer CONTATO ZERO para poder finalmente se curar, superar, e se proteger, o simples fato de que ainda sente algum tipo de obrigação para com ele/ela, já mostra que você precisa entender mais sobre como psicopatas operam. Porque assim que você entender e a informação REALMENTE sedimentar, você vai estar tão irada/o, arrepiada/o e com nojo, que você não vai sentir um pingo de culpa sobre “os sentimentos” dele/a (que ele/a NÃO TEM) e sobre “dever algo” a ele/a.

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traduzido do original, exceto a parte entre asteriscos.

Veja também: Como sair de um relacionamento com psicopata:

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